A Anormalidade de Sempre

Após um ano de pandemia, ao mesmo tempo em que temos clareza sobre os efeitos devastadores da Covid-19, ainda sabemos com precisão qual o tamanho exato da tragédia em nosso país. O fato é que, apesar dos mais de 300 mil mortos pelo vírus, um gigantesco número de pessoas começa cada vez mais a querer retomar suas rotinas diárias, seja pelas mais diversas motivações: por sobrevivência, por trabalho, entretenimento, consumo, socialização, o que for. E diante desse cenário nebuloso, carrego em mim um extremo orgulho de não ter usado até agora em momento algum nas minhas aulas, lives, textos e conversas, o ultra desgastado termo “novo normal”. É um termo irresistível. Ele é provocativo, sedutor e vende bem por ele mesmo. Uma expressão simples e que magnetiza ávidos consumidores de informação para saber o que estaria por vir e o que está por vir. Muita gente está agoniada querendo ter uma bola de cristal que, a meu ver, ninguém detém.

Quem preconiza um chamado “novo normal” prega nas entrelinhas que o mundo que se esquadrinha será completamente diferente, que nossa rotina será bem distinta do que era em muitos aspectos e que um dito ritmo normal (novo ou velho) é o que dá o tom e rege nossas vidas. Sou um cético de carteirinha e ainda que seja de proporções incalculáveis os prejuízos que a pandemia gerou, gera e irá gerar nas mais diversas esferas sociais, políticas, econômicas e culturais. Parto do pressuposto de que o vírus não provocará mudanças drásticas em coisa nenhuma. Claro que já estamos presenciando certas mudanças em hábitos de consumo, novos comportamentos e novos modos de ser dos indivíduos na pandemia. Mas eu sou cauteloso para sair concluindo coisas sobre tudo isso e resisto fortemente em não cair em generalizações reducionistas. Para mim, claro que teremos mudanças. Eu diria pequenas reconfigurações, mas mínimas e lentas. Vejo que tenderemos a ser mais cuidadosos e criteriosos com nossa higienização pessoal. A digitalização da comunicação é algo que veio para ficar e só tende a aumentar. E bater bumbo que há um dito “novo normal” à nossa porta é algo que atrai pessoas, magnetiza audiências, vende livro, enche palestra, bomba lives e rende centenas de horas de irresponsáveis elucubrações. Aliás, nesses tempos de confinamento forçado, milhares de lives brotaram em 2020 em nossas timelinescom pseudo-gurus de plantão, destilando as mais desvairadas certezas do que iria acontecer e do que não iria acontecer. Sem o menor anteparo científico, acadêmico ou conceitual, vi muitas, mas muitas pessoas, de forma despudorada, pregarem, preverem ou profetizarem isso ou aquilo. Com meus poucos cabelos brancos que começam sorrateiramente a aparecer, parece que meu sensor de detectar charlatões fica mais aguçado. Eu os detectei aos montes.

Nas poucas lives das quais participei, sempre procurei analisar tudo com a lupa bem ajustada e muito reticente em relação a tudo que via. Tenho por hábito “subir no ombro de gigantes para tentar enxergar mais longe”, como bem nos ensinou uma vez o astrônomo, alquimista, filósofo, teólogo e cientista inglês Issac Newton. Tenho o saudável cacoete de convocar bons autores nas minhas aulas para iluminar a minha percepção e de meus queridos alunos sobre quaisquer coisas de nosso entorno. Ainda bem que temos pessoas lúcidas no mundo hoje, como Bruno Latour, para mim, um dos maiores intelectuais vivos do planeta hoje. O antropólogo francês nos ofereceu, a meu ver, uma das ponderações mais certeiras e foi na jugular ao dizer que: “Não há normalidade a que retornar”. Inclusive essa frase curta, mas lacradora (para pegar o termo da modinha) foi projetada em alguns edifícios no centro de São Paulo no ano passado. Definitivamente, não há normalidade a que retornar. Chamar de normal o mundo que vivemos é tapar os olhos e nos omitirmos para problemas gravíssimos que testemunhamos todos os dias. Para citar apenas um, para mim dos mais capitais: a extrema desigualdade social que assola nosso país de uma forma vil, secular, estrutural, crônica e endêmica e de complexa resolução.

Claro que com o avançar das semanas e meses de isolamento social, as pessoas anseiam pela volta às suas vidas, a fazer o que faziam antes, voltar ao boteco cheio, ao show, à arquibancada, à praia e ao aeroporto. No entanto, para o antropólogo francês, não há porque voltarmos à vida como ela é. Para Latour, a pandemia nos evidenciou com muita clareza que sim, é possível cessar a atividade econômica global, ainda que inúmeros líderes políticos tenham passado anos e anos a fio bradando que o “trem do progresso” não deveria e não poderia parar de jeito nenhum. E muito mais necessário do que simplesmente voltar à nossa rotina usual do dia-a-dia, uma das reflexões mais importantes seria nós aproveitarmos esse momento atípico para buscarmos novas formas de viver, produzir e consumir, sobretudo diante de uma crise como essa, sem precedentes, e que permeia os quatro cantos do planeta.

Mais um ano de lockdown e isolamento radical se projeta para 2021. Que nós tenhamos ainda mais sanidade emocional e psíquica para aguentar a pesada rotina da vida indoor forçada. O meu olhar nesse momento é de cautela, extrema atenção a detalhes e continuar subindo no ombro de gigantes como Latour, André Lemos, Muniz Sodré, Juremir Machado e tantos outros. Seguimos acompanhando tudo que conseguimos absorver. Concentro meu olhar hoje também para fora do Brasil. Ainda que cada país esteja vacinando na sua velocidade e reabrindo à sua maneira, gosto de tentar colher pistas do que acontece hoje na reabertura da Europa, China e Estados Unidos, para tentar projetar o que pode vir a acontecer aqui no Brasil quando tudo voltar à anormalidade de sempre.

Marcos Hiller – Mestre e doutorando em Comunicação e Práticas do Consumo do PPGCOM ESPM, Hiller leciona na pós graduação lato sensu da ESPM, FIA USP e FGV. Presta consultoria na área de branding, posicionamento de marcas e pesquisa (marcos.hiller@espm.br)

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