Celebridades que se engajam em temas políticos: o que a presença midiática de Anitta nos permite refletir sobre questões sociais no Brasil?

A revolução digital e a evolução das mais variadas formas de comunicação móvel tem alterado significativamente nossa vida cotidiana. Nessa nova configuração de mundo, em que ficamos cada vez mais expostos, as relações sociais se reconfiguram. Nossas interações tornam-se cada vez mais mediadas por aparatos tecnológicos como tablets, smartphones, computadores ou qualquer outro dispositivo, permitindo uma contínua expansão de relacionamentos e compartilhamentos de conteúdos simbólicos, em inúmeras modalidades e formatos (comentários, time line, lives, feed, stories, tweets, etc).

Na medida em que as relações sociais e a construção de nós enquanto sujeitos se modificam com a mediação tecnológica, transformam-se também as maneiras como nos relacionamos. Nessa realidade, a interação social se desassocia da necessidade de partilhar um lugar comum e ao mesmo tempo, nos tornamos muito mais expostos.

Nas redes sociais, por exemplo, os sujeitos ficam expostos de formas antes impensáveis no passado. Uma profusão de pessoas, com o auxílio de um dispositivo móvel conectado à internet, é capaz de tornar conteúdo dos mais diversos, visíveis para centenas ou milhares de pessoas. Claro que o nível dessa amplitude de disseminação vai ser definida pela quantidade de recursos que essas pessoas terão à disposição.

 Uma figura pública, com uma grande quantidade de seguidores em sites de redes sociais e destaque em ambientes midiáticos, por exemplo, terá um poder de alcance infinitamente maior comparado com aqueles que não transitam por esses locais. Nesses espaços de convivência on-line, as celebridades modulam suas identidades a partir do “olhar” do outro.

Assim, as celebridades, tidas como autoridades nessa moral do espetáculo –, ditam cotidianamente padrões de beleza, publicizam corpos, marcas e estilos de vida, tornando visões de mundo particulares plausíveis e convincentes, “vendidas” como ideais. Tais narrativas enfatizam aspectos da vida cotidiana, íntima e privada. E, dessa maneira, enquanto figuras públicas, possuem potencial de influência, inclusive em discussões políticas, e, portanto, desempenham papéis sociais.

 Como vozes que falam com milhões de pessoas, dado a projeção midiática, as celebridades geram debate e podem servir como importantes veículos para que temas de interesse público ganhem visibilidade. Sendo assim, a voz de uma personalidade com o alcance de Anitta possui amplos impactos no campo social. Com mais de 47 milhões de seguidores apenas no Instagram e ocupando diariamente manchetes de notícias e sites de entretenimento, suas ações, posicionamentos ou silêncios geram debate público.

A partir dessa perspectiva, a proposta da minha tese é discutir os debates sociais atrelados a cantora Anitta. Adotando uma leitura intersecional (que cruza aspectos relacionados a gênero, raça e classe) minha indagação principal é: a partir dos modos de presença identificadas na performance pública de Anitta em redes sociais, pensar como ela aciona espaços de debate sobre temáticas de grande repercussão. E também, o que as posturas assumidas e relações de pertencimento podem indicar acerca das relações de poder e assimetrias sociais, assim como evidenciar fluxos e contradições capazes de apontar possíveis estratégias de subversão ou reiterações de padrões normativos.

A potência em se discutir as performances da artista está no fato de sua presença midiática suscitar discussões sociais de grande relevância. Aqui nomeio algumas: questões sobre identidade racial, processos de miscigenação, sentidos de embranquecimento e negritude na cena audiovisual brasileira. Além de suscitar debates pertinentes a assuntos como feminismo e neoliberalismo, o lugar da periferia na construção imagética da cultura pop, elitismo, cultura popular etc. Para tanto, tenho olhado para alguns espaços que nomeio observatórios de análise: Instagram e Youtube e mais recentemente tem me chamado atenção também sua presença no twitter.

Um dos principais desafios ao longo da pesquisa tem sido lidar com a profusão de imagens e com distintas materialidades comunicacionais, que envolvem, por sua vez diferentes temporalidades e narrativas. Isto porque Anitta tem uma presença muito ativa nas redes sociais citadas.

Ao longo desse percurso, aponto como alguns dos principais resultados até o momento duas reflexões: 1. O protagonismo das redes sociais na trajetória da cantora: é notável que sem a presença da internet ela provavelmente não teria atingido o sucesso e relevância midiática que possui hoje; e o 2. O contexto da pandemia e de polarização política como marco em sua trajetória: percebe-se que a partir desse momento ela tem se engajado mais enfaticamente em discussões políticas.

Por fim, considero precoce afirmar que os recentes posicionamentos mais politizados da cantora, que por muito tempo se isentou de temáticas controversas, estejam ligados a um real engajamento em questionar circunstâncias sociais de opressão. Contudo, seus recentes posicionamentos, em que debateu assuntos tão fundamentais na atualidade reforçam a potência do audiovisual como possível lugar para pensar sobre as disputas de poder, conflitos e tensionamentos sobre a alteridade. 

Dariane Lima Arantes – Doutoranda no Programa de Pós Graduação em Comunicação e Práticas do Consumo da Escola Superior de Propaganda e Marketing (Bolsista CAPES – PROSUP INTEGRAL). Mestre em Comunicação e Práticas do Consumo pela ESPM-SP. Membro do grupo de pesquisa Culturas juvenis: comunicação, política e consumo (Juvenália). Pesquisadora associada na rede de investigação latino-americana CLACSO, no GT Infancias y Juventudes. E-mail: dariane_arantes@yahoo.com.br

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