Dilema das redes ou do consumo?

A relação entre a sociedade e a mídia é hoje tão estreita que é impossível, ainda mais em tempos de pandemia de Covid-19, pensar como seria a vida sem acesso a tecnologias de comunicação, mas nem sempre nos questionamos sobre a razão dessa dependência. Será que realmente precisamos estar conectados o tempo todo ou fomos induzidos a isso para fins capitalistas?

Essa reflexão tem como fio condutor o documentário O Dilema das Redes, lançado em setembro (2020) no serviço de streaming da Netflix. A proposta do filme é mostrar como as empresas de tecnologia alienam e manipulam os consumidores, de forma que produzam valor para si mesmas. A cada interação na rede, o consumidor gera dados que permitem às empresas direcionar, de forma cada vez mais eficaz, conteúdos que podem mantê-lo conectado por mais tempo, fornecendo mais dados. O lucro é obtido por meio da exposição do consumidor a anúncios personalizados, que têm mais chance de resultar em compra. 

Nessa relação, é como se todos saíssem ganhando: as empresas de tecnologias, que conseguem monetizar seus negócios, os anunciantes, que conseguem se conectar melhor com os consumidores, e o próprio consumidor, que recebe conteúdos de sua preferência. No entanto, o filme argumenta, esse modelo de negócios é prejudicial porque os mecanismos de recomendação podem ser manipulados para dar voz à grupos extremistas, espalhar notícias falsas, impedir que se estabeleça uma compreensão comum sobre a realidade, tendo como consequência um ambiente político extremamente polarizado e riscos de convulsões sociais.

 Ao mesmo tempo, os mecanismos destinados a tornar o consumidor dependente das interações nas redes sociais são apontados como danosos à saúde mental porque nos colocam em uma situação de constante ansiedade social. Nesse caso, o consumidor, além de produzir valor às empresas, como uma força de trabalho não-remunerada, estaria agindo em detrimento de si próprio. 

O filme mostra, didaticamente, como funcionam as engrenagens desse sistema, mas boa parte da produção se dedica a reproduzir ideias que já viraram lugares-comuns: o celular vicia, as redes sociais impactam a saúde mental, estamos dependentes da tecnologia… Algo que pais ou professores diriam para os mais jovens. Não por acaso uma parte do filme, ficcional, se passa num contexto doméstico.

Nas sequências não-ficcionais, um dos principais chamarizes são os depoimentos de ex-funcionários de empresas de tecnologia. Nesse momento, o filme se dedica a mostrar como os gigantes da tecnologia criaram, num misto de boas intenções, espírito empreendedor e vontade de lucrar, esse monstro manipulador. É como se fosse um ato de contrição – alguns dos desenvolvedores juram que não sabiam dos efeitos nocivos (“a ideia do botão de curtida era espalhar positividade”).

Após assistir à produção, fica claro que há tentativa de manipulação por parte das empresas e que o uso de tecnologia pode ter efeitos nocivos. No entanto, embora os argumentos pareçam convincentes, o filme peca por ter uma compreensão limitada sobre as relações sociais, as práticas de consumo e a própria relação entre os consumidores a publicidade. É como se a publicidade tivesse sido inventada pelas redes sociais e os consumidores já não tivessem um estoque de capacidade crítica acumulado para fazer reapropriações ou resistir às estratégias comerciais. A impressão que fica é que podemos ser induzidos à compra simplesmente após sermos expostos a um anúncio. Nesse aspecto, a produção talvez funcione melhor como uma peça de propaganda, pelo esforço de conscientização (e o tom alarmista contribui para isso), do que uma análise sociocultural. Por que então discuti-la? Justamente por suas visões a respeito do consumo.  

O interessante no documentário não é o alegado “dilema das redes”, mas os dilemas relacionados ao consumo e aos direitos do consumidor que pontuam a narrativa. Podemos considerar a publicidade digital, da maneira como é praticada atualmente, abusiva? Até onde as empresas podem ir para conseguir informações e dados pessoais para tentar influenciar nossas opções de compra e nosso comportamento? Devemos tratar nossos dados como mercadorias ou colocá-los fora da esfera das mercadorias, como aconteceu com o tráfico de pessoas e comércio de órgãos? Consumimos por opção consciente ou por que estamos sendo manipulados?  

Ao mobilizar esses questionamentos, o filme toca em alguns dilemas fundamentais do consumo: o consumo como esfera de realização pessoal versus o consumo como ameaça ao senso de autonomia e identidade, a relação entre seres e objetos, a inclusão ou exclusão de itens na esfera da mercadoria, que define os contornos da nossa relação com o universo do consumo. 

O filme também explora os riscos que a visão econômica liberal pode representar à sociedade. Do ponto de vista comercial e tecnológico, as redes sociais parecem ser a máxima expressão desse pensamento: não importa o que as pessoas consumam, comuniquem, comprem, desde que seus interesses sejam satisfeitos e contribuam com a produção de valor.

Em face a esse complexo sistema midiático e de consumo, as informações que precisamos dispor para consumir também se tornaram mais complexas, sendo necessário um esforço conjunto entre política e educação (e também entre comunicação e consumo) para que sejamos capazes de nos relacionar com a tecnologia de forma mais crítica, defender nossos direitos como consumidores e melhor definir os limites das atuações dessas empresas. 

Como o próprio filme aponta, “vivemos uma utopia e uma distopia ao mesmo tempo”, uma frase que sintetiza aquilo que as forças capitalistas e o espírito liberal são capazes, para o bem ou para o mal, de produzir quando atuam livremente, sem regulações morais e políticas. 

LEONARDO RODRIGUES – mestrando no programa de pós-graduação em Comunicação e Práticas de Consumo da Escola Superior de Propaganda e Marketing. Suas pesquisas tem foco na relação entre consumo e formação de identidades.

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