Máscaras na pandemia: do luxo ao lixo

É provável que, por um longo tempo ainda, a máscara de proteção ao Coronavírus continue sendo a nova “extensão do homem”, parodiando um pouco Marshall McLuhan. Mas neste caso não como uma ferramenta que aperfeiçoa os sentidos, como diria o autor, e sim um aparato que nos auxilia na defesa do organismo. Em muitos países ninguém mais sai de casa sem levar consigo uma máscara, mesmo porque grande parte dos estabelecimentos não permite mais a entrada sem o devido equipamento de proteção. A peça agora compõe a nossa indumentária, quer queiramos ou não – e aqui vou abstrair os negacionistas, um fenômeno evidente de autoproteção e segurança ilusórias. A máscara nos causa (ou causava?) medo, dada a sua função, e estudos mostram o quanto elas incitam sentimentos como ansiedade e angústia em muitas pessoas. O distanciamento social, aliado ao silêncio que a própria máscara nos impõe, são bem inusitados ainda, mas nossa relação com este objeto já tem demonstrado sinais de mudanças, tanto no campo conceitual quanto no social. 

Vale, portanto, acompanhar a trajetória deste item tão recente em nossas vidas, e que vem se transformando no imaginário de todos de forma diversa e curiosa.

É fato que a máscara tem causado algumas excitações no campo do consumo, a exemplo de versões “gourmetizadas” caríssimas feitas com zircônias, que chegam a custar R$ 600 no mercado online brasileiro. Muitos estilistas estão criando suas próprias versões, e celebridades, bem como influencers, vêm confiando e ostentando seus caríssimos itens de proteção com marcas como Fendi, Louis Vuitton, Gucci, Chanel, Off White, Supreme, Saint Laurent, Balenciaga e por aí afora.

Estilista produz acessórios de luxo para máscaras
1. Acessório de luxo para máscara feito de zircônia que custa R$ 600,00 (Foto: Luddy Ferreira) 2. A modelo Jessica Hart usa máscara Louis Vuitton em seu perfil do Instagram; 3. Billie Eilish com máscara da Gucci no Grammy 2020 (Foto: AFP).

As máscaras caseiras, porém, são as que transmitem maior simpatia, e existem centenas de “receitas” na internet para o faça você mesmo. Diante das recentes mudanças, a produção de máscaras artesanais virou oportunidade de negócio para muitas pessoas e até pequenas empresas, que divulgam seus novos produtos nas redes sociais ou em sites de venda online. 

Por outro lado, muitas grandes empresas entenderam esta necessidade como uma grande “oportunidade” de negócios e marketing, e vêm investindo em novas tecnologias para o item, a exemplo da Adidas, que lançou a Face Cover, uma máscara facial reutilizável feita de material reciclado, cuja parte da venda é destinada ao Save The Children’s Global Coronavirus Response Fund, um fundo que ajuda a salvar vidas através da prevenção e da contenção da pandemia em locais de maior necessidade. O “marketing da filantropia” é comum e sempre bem visto por todos, mas não deixa de ser marketing em primeiro lugar. Quando a empresa em que você trabalha te envia uma máscara de proteção bacana pelo correio, com a marca da empresa estrategicamente estampada na lateral, obviamente sua intenção não é apenas de protegê-lo do vírus, mas também (e talvez principalmente) usá-lo como um outdoor ambulante para fins de propaganda gratuita.

Mas neste assunto a filantropia também existe em seu estado mais nobre. O projeto Contagiando Sorrisos convida artistas plásticos como Ziraldo, Laerte e Cesar Marchesini para desenharem sorrisos que são estampados em máscaras e distribuídos para parte da população sem acesso que prestam serviços essenciais a comunidade. O objetivo é aliviar a tensão que as máscaras causam e “transformá-las em alegria, esperança e positividade”.

Projeto Contagiando Sorrisos – www.contagiandosorrisos.com.br

Outros fenômenos como humor, arte, terror ou política fazem da máscara um veículo direto de comunicação, e essas mensagens carecem de mais estudo. Se a máxima “somos o que vestimos” está valendo, a máscara hoje em dia pode nos ajudar nesta tarefa de forma bem efetiva, pois até para os mais distraídos é difícil não observar o que está estampado no rosto de seu interlocutor.

A máscara também pode se tornar símbolo de resistência e luta nos tempos de Covid-19. O simples fato de usá-la ou não já revela um posicionamento político, especialmente no Brasil, onde as próprias autoridades vêm negando a gravidade do vírus e frequentemente se recusam a usar o item de proteção. Ativistas têm se unido nas mídias sociais para transformar máscaras em veículos de informação e conscientização, e encorajam as pessoas a postarem fotos que demonstram solidariedade com as vítimas de suas causas. Alguns movimentos como o racism is the real vírus (#racismistherealvirus) ou o hate is a vírus (@hateisavirus) têm surgido para ajudar na conscientização das pessoas em relação à causas como racismo, homofobia, violência contra a mulher, entre outros, e utilizam este valioso espaço como meio de comunicação.

Alguns exemplos de ativismo com uso de máscaras, com destaque ao grupo boliviano Mujeres Creando, cujo mote “Ficar em casa não é o mesmo que ficar quieto em casa” pode ser lido nas máscaras laváveis ​​de algodão produzidas e vendidas pelas ativistas para fins de ajuda (Foto: Juan Karita).

Cobrir o rosto talvez será o nosso novo “normal” por um longo tempo, e teremos que lidar com isso. É muito provável que surjam novos designs para estes aparatos, mais ergonômicos e eficientes, que possam deixar nossas expressões mais aparentes e aliviar a tensão que sua finalidade explicita ainda hoje, não sabemos. Mas outra questão, não menos urgente, também vem chamando a atenção neste assunto: o que fazer com este novo lixo que vem sendo produzido em larga escala? Já é possível achar máscaras descartadas na natureza em lugares dos mais remotos, e também jogadas ou esquecidas displicentemente em todos os cantos das grandes e pequenas cidades. Não há muita informação de como proceder nesse sentido, e a maioria simplesmente ignora sobre como as máscaras devem ser devidamente descartadas. Fato é que seu material não é reciclável, e, portanto, elas deveriam ir para o lixo comum, o que por si só já é um problema. Outra questão diz respeito ao risco de contaminação de profissionais de limpeza e saúde. Na França, os responsáveis pela limpeza das ruas da capital fizeram um apelo para que as pessoas deixassem suas máscaras em sacos plásticos durante 20 horas, um tipo de quarentena, e só então as jogassem no lixo comum. 

Em poucas semanas de pandemia já era possível encontrar máscaras e luvas descartáveis em praias e ilhas do mundo todo. Grupos de ambientalistas alertaram que esse lixo representa uma grande ameaça à vida marinha e aos habitats de animais selvagens. Durante o mês de maio, a ONG francesa Operátion Mer Propre (Operação Mar Limpo) compartilhou fotos deste fenômeno e alertou sobre este novo tipo de poluição. A WWF (World Wide Fund for Nature) estima que, se apenas 1% das máscaras e luvas que vêm sendo utilizadas no mundo forem parar no mar, serão 40 toneladas de material a contaminar os oceanos.

Gary Stokes, fundador do grupo pela conservação marinha OceansAsia, mostra máscaras coletadas em uma praia de Hong Kong (Foto: REUTERS).

 À direita, fotos tiradas em ilhas mostram um dos mais recentes perigos às tartarugas, as luvas descartáveis: os animais frequentemente as confundem com alimento e acabam por ingeri-las.

Os dados são alarmantes e as informações ainda custam a chegar. Felizmente, material didático sobre o descarte correto dos EPIs existe aos montes, e em uma rápida busca na internet foi possível encontrar muita informação, mas ainda temos muitos empecilhos pelo caminho, e a desinformação costuma ser o maior inimigo.  

LARA VOLLMER

Lara Vollmer é designer, professora de Design e doutoranda em Comunicação e Práticas de Consumo pela ESPM-SP. Vive atualmente na Alemanha e foca seus estudos na diminuição do consumo e desaceleração da vida.

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