Sensualização, deboche e resistência em Lia Clark

“Existe alguma resistência (política; subjetiva; estética) possível em contextos de entretenimento pós-massivo?” é com essa pergunta que Rose Rocha, professora titular do PPGCom da Escola Superior de Propaganda e Marketing – SP e Pós-Doutora em Ciências Sociais/Antropologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUCSP, e Marina Caminha, Pós-Doutora pelo PPGCom da Escola Superior de Propaganda e Marketing – SP e Doutora em Comunicação Social pela Universidade Federal Fluminense – UFF, iniciam o artigo “Estéticas bastardas de subjetividades celebrizadas: sensualização, deboche e resistências no pop-funk de Lia Clark”. A partir desta pergunta, os autores no levam a entender as potências das subjetividades políticas encorpadas em Lia Clark – a análise é feita através tanto do corpo real de Lia, ou seja, entrevistas e falas, quanto através do aspecto midiatizado de Lia, videoclipes e letras de músicas.

Lia é vista no artigo como essa potência de reivindicação de espaços políticos e midiáticos através do deboche, da sátira e do humor – começando por seu nome inspirado por uma participante do BBB em conjunto com uma patricinha da série estadunidense 90210; de outro modo, Lia representa uma alegoria do pop através de um corpo político e sensualizado – corpo esse que, como mostram os autores, é tanto espaço de violências quanto de resistências.

O corpo político de Lia Clark – tecido nos entremeios da visualidade trans e da audiovisibilidade drag – poderá então ser nomeado como lócus de subjetivação que dota de sentido um território biossimbólico dissidente/insurgente, ambíguo e ambivalente. Nesta direção, adotamos em nosso artigo a concepção porosa de reexistência, menção explícita à capacidade (subjetiva) de se reinventar, mas o que nos é caro, as formas outras de fazer política, de se pensar o político e de se reapresentar politicamente, em especial em expressões resilientes e esteticamente informadas. (ROCHA e CAMINHA, p.4, 2019)

Ou seja, o corpo – tanto real quanto mídia – é o espaço onde a reivindicação e a reexistência se fazem presentes, corpo este que, circula no âmbito da cultura pop/funk brasileira. Os autores fazem então aproximações entre o corpo de Lia e seus discursos, mostrando possibilidades e disrupções criadas nos mesmos.

É um jogo de inversões que se faz entre elementos do grotesco (através das citações cotidianas e populares para órgãos do corpo humano, tais como caralho e cu), as performances que descrevem o sexo, as imagens em close de sua bunda rebolando para a câmera, por exemplo, e as referências a representações de mulher advindas de uma estética espetacularizada, de higienização do popular, que pode ser percebida na estilização de jovens americanas modelares no cinema e em algumas séries (ROCHA e Caminha, p.7, 2019)

Sendo assim, o artigo caminha para uma proposição de que este jogo de inversões apresentado no âmbito corporal cauda tanto deslocamentos como gera um “convite à reinvenção (de outros corpos, olhares, escutas, visões de mundo e práticas cotidianas)” – um exercício de autoconstituição que acaba criando reverberações nos tecidos sociais e midiáticos nos quais esta constituição circula. Um dos objetos que é analisado de maneira mais aplicada pelos autores é a música, e seu respectivo clipe, Trava Trava.

Divulgação do clipe

Na música, lançada em 2016, são apresentados espaços de representação de uma mesma Lia, como propõe o artigo, uma Lia dominatriz, uma Lia que se aproxima das marginalidades queer (no artigo trazido a partir da palavra “descarte” em associação ao espaço com diversos objetos destruídos e velhos) e uma Lia que, assim aqui chamamos, popular (representada pela cena da praia no videoclipe). O artigo nos mostra que esses âmbitos que Lia ocupa fazem parte da sua formação enquanto corpo-subjetividade. Avançamos brevemente seguindo a ideia.

Lia não pretende viver na invisibilidade. Em seu devir drag, e, em sincronicidade, em seu devir gay, Clark faz uso do seu corpo desejante como uma pulsão que atravessa e é atravessada pelos circuitos da espetacularização e dos consumos midiáticos. Nesta negociação ela pode ser, possuir uma renda e se fazer ouvir – uma disputa que se constitui pela conscientização/provocação da existência/ permanência de alteridades audiovisíveis. (ROCHA e Caminha, p.12, 2019) 

Assim, seguindo tanto o artigo quanto o clipe, vemos que Lia é uma proposta não só de resistência mas de ocupação da mídia e do pop do Brasil – um devir que foge da invisibilidade e busca o holofote como seu conforto e tensionamento. Ao fim do artigo, os autores nos trazem aproximações do conceito de reexistência – assimilação e resistência – e como o mesmo deve ser pensado a partir das práticas corporais desses sujeitos dissidentes da cultura pop – aqui encarnados em Lia Clark.

Acreditamos que o artigo faça uma genial subversão do espaço pop ao mostrar que sim, é possível identificar resistências nesse contexto pós-massivo e que, ainda, estas resistências não são dadas pelo mero acaso, elas são presentes, fortes e conscientes.

REFERÊNCIA: ROCHA, Rose de Melo; CAMINHA, Marina. Estéticas bastardas de subjetividades celebrizadas: sensualização, deboche e resistências no pop-funk de Lia Clark. Revista Famecos, [s.l.], v. 26, n. 1, p. 30349, 5 ago. 2019. EDIPUCRS.http://dx.doi.org/10.15448/1980-3729.2019.1.30349.

Daniel Zacariotti

Mestrando em Comunicação e Práticas de Consumo pela Escola Superior de Propaganda e Marketing – ESPM, realiza pesquisas com foco em audiovisual, gênero, decolonialidade e Teoria Queer. Atua como Diretor e Produtor em projetos audiovisuais dentro do Coletivo Composto.

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